A Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos existe há 36 anos e para nos situarmos vamos relembrar como tudo começou: constatando uma grande incidência de crianças surdas, à margem da sociedade, na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul, um grupo de pais de surdos, senhoras da comunidade Luterana São João, educadores, voluntários e Prefeitura Municipal de Santa Rosa decidiram unir-se e fundaram, em 27 de setembro de 1986, uma escola diferente, especial. Nasce então a Escola de 1º Grau Incompleto Concórdia para Educação Especial. Esta Escola iniciou suas atividades no dia 04 de março de 1987, nas dependências do Colégio Concórdia. No ano seguinte, iniciaram-se as atividades na escola com 21 alunos iniciando o ensino fundamental, destes alunos alguns estavam em idade escolar para iniciar o processo alfabetização e outros com idade mais avançada, mas que não estavam alfabetizados, as turmas nesse período eram dividas em níveis de aprendizagem e atendidas por quatro professores habilitados na área da deficiência auditiva, que realizaram formação na Escola Concórdia em Porto Alegre – RS.
Mais tarde em 1990 passou a chamar-se Escola de 1º Grau Concórdia para Educação Especial, com aprovação do curso de 1º Grau completo, nesse período a escola estava organizada com turmas até a 6ª série do ensino fundamental, de acordo com a demanda das séries. A escola era administrada por uma diretora e vice diretora, não havendo coordenação pedagógica, pois este era delegado a direção que coordenava o quadro de professores e o trabalho que era realizado na escola, sendo 10 professores no quadro. Como os alunos estavam entrando numa escola própria para eles, demandavam apropriar-se da Libras, pois estes ainda utilizavam-se de sinais caseiros, mímicas e gestos. A direção da escola preocupada com o processo da aprendizagem viu-se necessário ensinar a libras para os surdos da região, pois sem comunicação não aconteceria a aprendizagem, foi então que convidou dois professores da Escola Concórdia de Porto Alegre – CEDA para que viessem a Santa Rosa e ensinassem a língua de sinais aos surdos.
Também em momento oportuno, nesse período, foi realizado em Santa Rosa, o 1º curso de Capacitação de professores para atuarem na área da Deficiência Auditiva, que foi coordenado pela Escola de 1º Grau Concórdia para Educação Especial e pelo CEDA de Porto Alegre, realizado em parceira com a Faculdade Salesiana Dom Bosco.
Nessa época o processo de aprendizagem acontecia através do método da comunicação total, o uso da língua de sinais e da língua portuguesa associados para ensinar os surdos, ou seja, além de aprenderem os conteúdos dos componentes curriculares, os surdos tinham que dominar a libras e aprender a falar a língua portuguesa. Dentro da grade curricular além dos componentes curriculares tradicionais existia o treinamento auditivo e fala, este era um profissional fonoaudiólogo, que em uma aula por semana fazia o treinamento de fala e os alunos eram avaliados por notas de acordo com a sua evolução, esse trabalho era estimulado aos professores de sala de aula que deviam cobrar dos alunos a leitura labial. Nesse método não era a estrutura da libras o ponto de partida da aprendizagem, era considerado o português sinalizado. A escola já contava com uma equipe técnica: psicóloga, assistente social e fonoaudióloga.
Em 1997 iniciou o processo de implantação do ensino médio, com aprovação do mesmo em 1999 passando a chamar-se Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos, proporcionando educação infantil, ensino fundamental e médio. Nesse período a escola já demandava um quadro de professores, sob a orientação da coordenação pedagógica voltada para o trabalho dos professores em sala de aula, estimulando-os e acompanhando-os no dia-a-dia.
Em 1998, formou-se a 1ª turma no ensino fundamental, com 6 alunos, estes deram início as atividades do ensino médio da escola, que já estava preparada para atender a demanda, inclusive no turno da noite. O trabalho pedagógica continuava sendo desenvolvido através do método da comunicação total, os professores realizavam suas atividades sempre partindo de uma experiência prática visual, pois o canal de aprendizagem do surdo é o canal visual. Todos os professores dominavam a libras.
No ano de 2000 a escola contratou a 1ª profissional surda da escola, para ocupar o cargo de instrutora de libras. Este foi o marco inicial do processo de tramitação metodológica da comunicação total para o bilinguismo, deixando de existir o treinamento auditivo de fala e sim passou a fazer parte da Grade Curricular a Disciplina de Libras.
No ano de 2003 a escola formou a 1ª turma do ensino médio, num total de 11 alunos. Nessa trajetória a escola formou 13 turmas do ensino fundamental e 8 turmas do ensino médio, perfazendo um total de 66 alunos no ensino fundamental e 50 alunos no ensino médio.
Em 04 de agosto de 2002, ocorreu a inauguração da sua sede própria, fruto do esforço de toda a comunidade que apoiou e acolheu projetos e eventos beneficentes realizados para obtenção de recursos. Foram cerca de oito anos de lutas, paralisações por falta de recursos e obras, onde o esforço dos pais em busca de materiais de construção e mão de obra própria concretizou os alicerces e paredes do prédio. Somente após esta fase foram repassados recursos governamentais e da instituição CBM da Alemanha, fundamentais para que o sonho de uma escola para educação de surdos nessa região não se perdesse pelo caminho.
A garra e a coragem de todos os profissionais no empenho para construção de um espaço própria para a escola de surdos sempre foi impulsionadora do trabalho pedagógico que vinha sendo realizado dentro das salas de aula, objetivando oferecer uma educação de qualidade. Utilizando-se do bilinguismo como método de ensino, os professores preparavam suas aulas de forma que a língua de sinais era a ferramenta fundamental par o ensino de todas as disciplinas, pois esta é a construtora do desenvolvimento cognitivo e da identidade surda. A aprendizagem ocorria partindo-se da prática, oportunizando a interação, a troca e a identificação entre os pares, assim os alunos surdos iam se apropriando do conhecimento, construindo sua identidade, desenvolvendo de forma natural o seu aprimoramento linguístico e cultural.
A escola teve a oportunidade de receber duas intercambistas surdas, provenientes da Inglaterra, cuja experiência foi enriquecedora para os surdos da nossa escola e região, pois além do contato cultural, ouve um intercâmbio entre as Línguas de Sinais, pois esta é diferente de acordo com o seu país de origem.
Da mesma forma a escola como sendo a pioneira na educação de surdos da região noroeste do RS e referencia no estado, coordenou e realizou durante 4 edições o Seminário de Educação de Surdos, trazendo palestrantes renomados na área da Educação de Surdos e tendo a participação de profissionais, alunos e familiares dos três estados da região sul do país. Hoje a escola encontra-se em seu espaço próprio, contando com profissionais habilitados e capacitados para o atendimento educacional de surdos. O método de ensino utilizado continua sendo o bilinguismo, no qual a língua portuguesa é ensinada como a 2ª língua, e a Libras sendo a 1ª língua, pois esta é a língua materna do surdo.
A Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos realiza seu trabalho voltado para a educação de surdos com compromisso e responsabilidade, buscando atender as características e necessidades dessa comunidade, proporcionado um espaço especializado onde as representações e construções de identidade são edificadas através do contato e convívio com seus pares. Reconhecendo o ambiente escolar como o impulsionador desta caminhada que resgata a trajetória de um grupo historicamente constituído respeitando a realidade e luta da comunidade surda pelo direito de exercer plenamente sua cidadania.
Para o atendimento ao surdo a escola possui uma equipe multidisciplinar: assistente social, psicóloga, fonoaudióloga, coordenadora pedagógica, assessora pedagógica, docentes especializados na área da surdez, instrutores surdos de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e intérpretes. Estes por sua vez, foram formados através de um curso de Formação de Intérpretes de Libras, oportunizado pela escola em parceria com a FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdso) e a Fundação Educacional Machado de Assis em 2007, capacitando para a atuação de intérprete uma demanda dos profissionais da escola para suprir uma carência da região.
Em 2009 a escola se propôs a um novo desafio: atender alunos surdos com outras deficiências associadas. O primeiro passo foi qualificar os profissionais e a equipe técnica, o trabalho realizado com estes vai além da apropriação da libras, pois muitos precisam ser estimulados dentro das suas dificuldades, desenvolvendo neles habilidades e capacidades para superar medos e oportunizando condições para que estes se reconheçam como pessoas capazes de interagirem no meio em que estão inseridos.
No ano de 2014 a APADA recebe da Parceiros Voluntários o Reconhecimento Regional, premio que busca divulgar exemplos de iniciativas sociais bem sucedidas, multiplicáveis e que possam no futuro influir em políticas públicas. Também busca demonstrar a força do trabalho em REDE e o seu resultado quando os vários segmentos da Comunidade se unem: voluntários, empresas, escola, organizações sociais, poder público e cidadãos beneficiários.
Na busca de novas metodologias, estratégias e recursos que desenvolva o aluno surdo a Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos mantida de APADA Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos em parceria com o Canil do Pelotão de Operações Especiais da Brigada Militar realiza a atividade de cinoterapia. A cinoterapia trabalha com uma cachorra da raça labrador chamada de LUNA e com alunos surdos, deficientes auditivos e deficiências associadas à interação dos mesmos com o meio em que estão inseridos proporciona melhora da autoestima e rendimento escolar.
A Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos responsável pela ação educativa de seus alunos, realiza um trabalho qualificado, permitindo ao aluno o acesso ao conhecimento social, cultural e intelectual, evitando com isso a evasão, reprovação e principalmente a marginalização deste. O trabalho que a escola de surdos realiza é único e desafiador diuturnamente, pois é na escola própria para surdos que inclusão dos surdos realmente acontece.
A perspectiva futura da escola é que o trabalho seja reconhecido e valorizado como o apropriado e coerente para a formação integral dos alunos surdos, dentro de um trabalho voltado para a apropriação do conhecimento, integração social e identificação de seus direitos e deveres. Através do bilinguismo, os conteúdos e conhecimentos sejam transmitidos de maneira clara e objetiva para que o processo de aprendizagem do aluno realmente aconteça. A abrangência da escola se estenda por todos os municípios da região que objetivem uma educação de qualidade para os seus munícipes surdos, visualizando o potencial do surdo para aprender com os seus pares.
Atualmente a escola atende crianças autistas e com outros síndromes e transtornos do desenvolvimento, com um trabalho qualificado com professores e monitores capacitados.
A instituição também é hoje referência no atendimento a pessoas com autismo, pois possui o Centro de Referência em transtorno do Espectro do Autismo – TEAcolhe RS, aprovado através do Edital de Seleção de Propostas para Implementação de Centros de Referência em Transtorno do Espectro do Autismo – DAAPPS nº 006/2021.
O principal objetivo da instituição e da escola é proporcionar um espaço adequado para que a aprendizagem realmente aconteça, um espaço inclusivo, no qual a criança esteja com seus iguais, consiga compreender de forma significativa o que lhe é transmitido e consiga desenvolver suas potencialidades e capacidades com estímulos próprios dentro das suas limitações.
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